PAPO DE VENDEDOR | EPISÓDIO #385

Processo de Vendas: O Que as Indústrias Que Mais Crescem Fazem Diferente

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Imagine um diretor comercial olhando para o fim do trimestre e tentando responder a uma pergunta simples: vamos bater a meta?

Ele abre o CRM. Há oportunidades espalhadas pelo funil.

Alguns vendedores atualizam as informações, outros não. Parte dos clientes está sendo acompanhada pelo WhatsApp, outra parte por e-mail e algumas negociações continuam apenas na memória do vendedor.

A tecnologia está presente. O CRM foi contratado. Existem planilhas, automações e até iniciativas de inteligência artificial.

Mas, ainda assim, falta uma coisa básica: saber exatamente como a equipe deve vender e se esse caminho está sendo seguido.

Esse cenário ajuda a explicar um dos principais achados do Panorama das Vendas Industriais 2026, pesquisa realizada pela Agendor com 215 indústrias brasileiras. O levantamento mostrou que, entre as empresas que cresceram mais de 5%, 46% possuem processo documentado e seguido. Entre aquelas que recuaram mais de 5%, esse percentual cai para apenas 17%.

A discussão ganha ainda mais relevância quando é feita por quem acompanha de perto os desafios de tecnologia e gestão comercial. O tema foi debatido por Túlio Monte Azul, Diretor de Produto e Cofundador Agendor CRM, e Gustavo Gomes, Diretor de Vendas da Agendor CRM, que trouxeram uma visão complementar sobre os desafios de construir uma operação comercial mais previsível.

A conclusão é direta: antes de procurar uma tecnologia mais sofisticada, é preciso organizar a maneira como a empresa vende.

O problema não é apenas ter um processo, mas fazer o time seguir

Existe uma diferença importante entre ter um processo desenhado e ter um processo funcionando.

Uma empresa pode ter um fluxograma, um manual comercial ou um funil configurado no CRM. Mas, se cada vendedor continua conduzindo a negociação de uma maneira diferente, o processo existe apenas no papel.

A própria pesquisa mostra esse problema: somente 28% das indústrias afirmam ter um processo documentado e seguido pela equipe. Em 36%, ele existe no papel, mas não é seguido. Em outros 33%, cada vendedor trabalha de acordo com o próprio método.

É o chamado “teatro do processo”: a empresa acredita que possui uma metodologia, mas ela não determina o comportamento da operação.

Na prática, um processo bem estruturado precisa responder a perguntas básicas:

  • Qual é a próxima etapa?
  • Quais informações precisam ser levantadas?
  • Quando uma oportunidade pode avançar?
  • O que caracteriza uma negociação qualificada?
  • Qual deve ser o próximo contato?

Essa clareza reduz a dependência do talento individual.

Pesquisa Panorama das Vendas Industriais Agendor CRM 2026.
46% das indústrias que mais crescem têm processo de vendas estruturado.

Leandro Munhoz, CEO e Fundador do SuperVendedores, apresentador do podcast Papo de Vendedor e administrador com MBA em Gestão Estratégica de Vendas pela FGV e pela University of Tampa, adverte que muitos executivos acreditam que comprar treinamentos isolados de metodologias clássicas de vendas, como o SPIN Selling, resolverá todos os problemas da operação. Contudo, ele defende que um método comercial robusto é um conceito holístico, representando a consolidação técnica de processos, a integração de tecnologia de CRM de forma estratégica e a perfeita adequação das abordagens ao Perfil de Cliente Ideal (ICP) do negócio.

“O método, pra mim, é o crème de la crème! É o estado da arte. É a compilação de todas as técnicas que funcionam no lugar certo, na etapa certa do processo. Com o processo e com o CRM que vira o método, naquele perfil de cliente ideal. O método é o último a ser estruturado.”

O vendedor precisa entender o “porquê”

Outro ponto importante é que a construção do processo não deveria acontecer de maneira puramente hierárquica.

O gestor pode definir a direção, mas o time comercial precisa participar da construção e entender por que determinadas etapas existem.

Quando uma regra é simplesmente imposta, a tendência é surgir resistência.

Quando o vendedor entende que determinada informação serve para melhorar o forecast, identificar gargalos ou evitar que uma oportunidade seja esquecida, o registro deixa de parecer burocracia.

Como resumido na discussão, “processo vem antes da tecnologia”.

Isso muda também a maneira de pensar em treinamento.

Como co-desenvolvedor de metodologias de avaliação de perfil em vendas e treinador de equipes comerciais em mais de 10 estados do Brasil, Daniel Mestre ressalta que ter processos de vendas intuitivos ou apenas “explicados” de boca em boca gera desalinhamento operacional.

A verdadeira escala de uma equipe de vendas comerciais e industriais acontece quando há uma documentação sistematizada das etapas do funil, conhecida formalmente como Playbook de Vendas. Esse guia fornece à força de vendas total controle e nitidez sobre o fluxo estratégico das negociações.

“A gente percebe até pelos nossos clientes, pelos alunos, que quando se tem o processo, o profissional tem mais clareza do que fazer, como fazer e quando fazer. Tudo fica mais claro. Quando você fala documentado, é um passo a mais, que é além daquilo que é explicado, ele tem realmente um documento que a gente pode chamar de playbook.”

Um playbook não serve apenas para controlar vendedores.

Ele cria uma base comum para que novos profissionais entendam rapidamente como a empresa vende e para que os mais experientes possam desenvolver novas habilidades a partir de uma estrutura conhecida.

CRM não resolve sozinho uma operação desorganizada

O CRM é importante, mas existe uma diferença entre usar uma ferramenta e fazer gestão comercial.

Na pesquisa, 70% das empresas que cresceram mais de 5% utilizam CRM, contra 55% entre as que recuaram.

A diferença existe, mas não foi estatisticamente significativa quando comparada a outros fatores, até porque o processo documentado e seguido apresentou uma relação muito mais forte com o crescimento.

Isso significa que simplesmente contratar um CRM não transforma a operação.

O sistema precisa refletir uma metodologia comercial que faça sentido para o negócio.

Quando isso acontece, o CRM passa a ser uma espécie de memória da empresa: registra o histórico do relacionamento, mostra em que etapa cada negociação está e permite que o gestor enxergue o que está acontecendo sem depender exclusivamente da memória dos vendedores.

Tecnologia deve reduzir trabalho, não criar burocracia

É justamente nesse ponto que a tecnologia pode gerar valor.

Um dos desafios apresentados por Túlio Monte Azul está relacionado à rotina dos vendedores.

Se o profissional precisa interromper constantemente uma visita ou uma conversa com o cliente para preencher dezenas de campos, existe uma grande chance de o CRM ficar desatualizado.

A tecnologia deveria trabalhar no sentido contrário: capturar as informações que já fazem parte da rotina comercial e transformá-las em dados úteis.

O WhatsApp é um exemplo claro. Como se tornou um dos principais canais de relacionamento comercial, integrar as conversas ao CRM permite preservar o histórico sem obrigar o vendedor a copiar e colar manualmente cada interação.

A inteligência artificial amplia essa possibilidade.

Em vez de exigir que o vendedor registre tudo, sistemas com IA podem ajudar a transformar áudios, conversas e outras informações da rotina em registros estruturados.

O Agendor, por exemplo, vem desenvolvendo recursos de IA voltados justamente para diminuir o trabalho operacional do vendedor.

O objetivo não é substituir a atuação comercial, mas liberar tempo para aquilo que realmente exige capacidade humana: entender o cliente, construir confiança, negociar e tomar decisões.

Túlio aponta que a principal barreira para a adoção de sistemas de gestão de vendas sempre foi o tempo excessivo gasto com digitação manual de relatórios (fricção). A ascensão de tecnologias generativas (como as LLMs) propiciou o surgimento da era do “software inteligente”:

“Antes das LLMs estarem tão avançadas, a gente vendia software para seres humanos irem lá preencher, seres humanos irem lá ler, analisar e tirar conclusões e decisões. Agora tem o próprio preenchimento feito por IA e a análise já com insights para você chegar com tudo mastigado. Isso a gente vê como a nova forma de oferecer sistemas. Softwares como o Agendor Intelligence, que a gente não oferece só o software em si, a gente oferece agentes de IA operando o software junto com a entrega final.”

A IA pode ajudar a fiscalizar a execução

Existe ainda uma aplicação menos óbvia da inteligência artificial.

Tradicionalmente, o gestor consegue acompanhar apenas uma pequena parcela das interações realizadas pelo time. Pode ouvir algumas ligações, analisar algumas oportunidades e conversar individualmente com vendedores.

A IA permite ampliar essa capacidade.

Ao analisar conversas, registros e atividades, a tecnologia pode identificar padrões: quais objeções aparecem com frequência, em quais etapas as oportunidades estão parando e se determinadas etapas do playbook estão sendo cumpridas.

Isso transforma a IA em uma ferramenta de inteligência comercial, e não apenas em um recurso para gerar textos.

Como destacou a discussão, o desafio passa a ser evoluir de um software que simplesmente recebe informações para um sistema capaz de interpretar o que está acontecendo e ajudar o gestor a decidir o próximo passo.

O gestor precisa de dados, mas principalmente de contexto

Imagine que um gestor descubra que a taxa de conversão da equipe caiu.

O número, sozinho, não explica o problema.

É necessário saber em qual etapa a conversão caiu:

  • Quais vendedores foram afetados;
  • Quais tipos de clientes estão desistindo;
  • Quais motivos de perda aparecem com maior frequência.

O problema está na qualificação? Na proposta? Na negociação? No preço? No prazo?

Por isso, acompanhar indicadores não significa apenas criar um dashboard.

Gestão comercial é tomar decisões a partir dos dados.

E existe um ponto especialmente preocupante: parte dos gestores sequer conhece alguns dos indicadores básicos da operação. A pesquisa identificou que 12% dos entrevistados não sabem a taxa de conversão e 7% não sabem o ticket médio.

Sem esses números, prever faturamento se torna muito mais difícil.

Panorama das Vendas Industriais Agendor CRM aponta desalinhamento entre gestores e vendedores.
Desalinhamento Gestão x Vendedores: 12% dos entrevistados não sabem a taxa de conversão e 7% não sabem o ticket médio.

O motivo da perda também precisa ser confiável

Outro problema comum acontece quando o CRM transforma a perda em uma espécie de culpa.

Se o vendedor acredita que registrar uma negociação perdida poderá gerar uma cobrança ou punição, ele terá menos incentivo para explicar o que realmente aconteceu.

O resultado são motivos genéricos como “preço” ou “concorrência”.

Mas “preço” pode significar muitas coisas. Pode ser que o cliente não tenha percebido valor. Pode ser que a proposta tenha sido mal construída. Pode ser que o concorrente tenha oferecido melhores condições. Pode ser que a empresa tenha abordado o cliente errado.

Sem contexto, o dado perde valor.

Quando a perda é tratada como fonte de aprendizado, o vendedor tem mais segurança para registrar a realidade. E o gestor passa a ter informações melhores para corrigir a operação.

Não esqueça quem já comprou

Existe outro grande espaço para melhoria: a carteira de clientes.

Segundo o levantamento, 46% das empresas afirmam que clientes que costumavam comprar estão atrasando ou congelando pedidos. Ao mesmo tempo, 73% das empresas não possuem um acompanhamento estruturado desses clientes.

Pesquisa Panorama das Vendas Industriais 2026 Agendor CRM
Em 73% das empresas, o follow-up de pós-venda depende unicamente da iniciativa do vendedor (51,6%) ou só acontece quando o cliente procura (21,4%)

Isso cria um paradoxo.

Enquanto a empresa investe energia para encontrar novos compradores, clientes que já conhecem sua marca podem estar reduzindo compras sem receber uma abordagem adequada.

A gestão da carteira precisa considerar não apenas quanto o cliente compra hoje, mas quanto ele poderia comprar.

Um cliente que compra R$ 100 mil da sua empresa, mas movimenta R$ 900 mil com concorrentes, pode representar uma oportunidade maior do que outro cliente que já compra R$ 700 mil e praticamente chegou ao seu limite.

É aí que entra o chamado over delivery: entregar mais valor, fortalecer a relação e transformar o fornecedor em parceiro.

Na gestão comercial B2B, a maioria das empresas classifica seus clientes (Curva ABC) utilizando estritamente o faturamento histórico e essa é uma falha crônica. A estratégia correta é medir o potencial de compra do cliente.

Ao focar somente no faturamento atual, você ignora as maiores oportunidades de crescimento na sua própria base.

Gustavo Gomes argumenta que o segmento de indústria é diferente, porque a indústria consegue vender muita coisa, consegue manufaturar e criar um produto relativamente melhor, mas essa comunicação comercial vai para o chão de fábrica, e esse vendedor deve explorar isso, entender o que tá acontecendo:

 “A gente precisa de inteligência para poder apoiar, porque por mais que eu me relacione com um cliente, eu tenho um bom contato e tudo mais, se eu tenho uma carteira muito grande, eu não vou conseguir chegar nesse nível de profundidade com todo mundo, por isso, a inteligência comercial deve vir antes, para direcionar a abordagem certa para o cliente correto e no momento correto.”

Follow-up não pode ser apenas “viu a proposta?”

Em vendas industriais, o ciclo costuma ser longo. Por isso, o acompanhamento não pode ser baseado em mensagens genéricas.

“Você conseguiu analisar a proposta?”

“Alguma novidade?”

“Podemos conversar?”

Essas abordagens até fazer parte de uma rotina, mas dificilmente criam valor sozinhas.

O follow-up precisa considerar o momento da negociação, o perfil do cliente, o processo de decisão e aquilo que precisa acontecer para a oportunidade avançar.

Os números reforçam essa importância: entre as empresas que cresceram mais de 5%, 35% possuem follow-up estruturado. Entre as que recuaram, são apenas 13%.

Automação pode ajudar, mas somente quando existe contexto. Uma mensagem programada depois de uma reunião, por exemplo, pode ser útil se estiver relacionada ao que foi combinado com aquele cliente.

Automatizar uma abordagem ruim apenas faz a abordagem ruim acontecer mais rápido.

Como começar a transformar a operação comercial

Para uma indústria que ainda não possui maturidade comercial, a solução não precisa começar por uma grande transformação tecnológica.

O primeiro passo é olhar para uma venda que deu certo e uma que foi perdida.

O que aconteceu em cada uma?

Quais foram as etapas?

Que informações foram levantadas?

Quando o cliente avançou?

Onde houve dificuldade?

Qual foi o próximo passo?

A partir dessas respostas, a empresa começa a identificar padrões e transformar conhecimento individual em método coletivo.

Depois, esse método pode ser documentado, testado, ajustado e incorporado à rotina.

Só então CRM, automação e inteligência artificial passam a potencializar uma estrutura que já existe.

A verdadeira eficiência comercial está na combinação

A grande lição do Panorama das Vendas Industriais 2026 não é que tecnologia deixou de ser importante. É exatamente o contrário.

Tecnologia se torna mais poderosa quando existe uma operação organizada para utilizá-la.

O crescimento sustentável depende da combinação entre processo, pessoas, dados, tecnologia, gestão de carteira e disciplina de execução.

Como resumiu a discussão entre Túlio Monte Azul e Gustavo Gomes, a tecnologia precisa estar alinhada à inteligência humana e à inteligência comercial.

No fim, não é o CRM mais sofisticado que necessariamente vence. Nem a empresa maior. Nem aquela que fala mais sobre IA.

É a empresa que consegue transformar conhecimento em método, método em rotina e rotina em resultado.

Porque vender mais não começa necessariamente com uma nova ferramenta.

Começa quando todos sabem como vender — e realmente seguem esse caminho.

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Conheça o convidado(a)

Túlio Monte Azul
Gustavo Gomes
Programa de Aceleração - Super Vendedores
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